Autor: Afonso Baião

Cenários de Natal

 O fim de ano traz de volta a questão que fecha o célebre soneto de Machado de Assis: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Alguns dizem que mudamos sempre para sermos os mesmos. Somos nós que mudamos ou mudam as circunstâncias?

Alguém pergunta: e se Jesus nascesse hoje? Ele, decerto, seria o mesmo: pobre, excluído, perseguido. Mas a cidade seria muito diferente: condomínios fechados, prédios com seguranças, casas com cercas elétricas sobre os muros e nenhuma estrebaria.

O presépio teria lugar sob alguma marquise ou debaixo de um viaduto. Não havendo cocho nem palha, o berço seriam caixas de papelão. Na falta do calor dos animais, o fogo aceso em latas por moradores de rua que tomariam o lugar dos pastores.

Em vez de ouro, incenso e mirra, o que teriam esses magros substitutos dos Reis Magos para oferecer ao Menino e a seus pais? Um gole de cachaça, um marmitex requentado, uma pedra de crack? Há quem componha, para além desse dramático presépio, um quadro trágico, como o poeta Gabriel Bicalho que vê Maria “na fila do sus / abortando jesus!”. E agora, que nem há mais médicos em grotões distantes como Nazaré?

Mas esta crônica escolhe cenários mais otimistas: mesmo que haja novos Herodes, reencarnado nas figuras de seus avatares xenófobos, sempre dispostos a um serviço completo de limpeza étnica e cultural, Jesus teima em nascer numa barraca, num campo de refugiados.

Pode ser ainda que Jesus cresça numa favela, numa comunidade quilombola, numa reserva indígena, num espaço ameaçado pela força e pela cobiça. Ou, quem sabe, Jesus seja um desses alunos de escola pública que se destacaram no ENEM? Talvez, por fim, Jesus tenha vindo morar, adotado, em nossa casa. Ele é “a criança tão humana que é divina”, como no poema de Fernando Pessoa: “é o divino que sorri e que brinca”.

Quando assiste ao telejornal ao nosso lado, ele “ri dos reis e dos que não são reis, tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios”. Ele brinca com nossos sonhos, dizendo “que não há mistérios no mundo” e que a vida vale a pena.

Afonso Guerra-Baião

Árvore da Vida

Esses dias fiz o caminho da roça, um trecho de estrada vicinal, aquela estradinha estreita, de terra batida, bem no meio do cerrado. Bem no meio da poeira e da palha em que se transformou a vegetação, bem no coração da seca, como se fosse na fronteira do deserto e nas vésperas de todos os incêndios. Paisagem em sépia, natureza morta, mato mirrado, amarelado, sob o sol abrasador. Tudo seco, tudo morto? Não. O cerrado produzia ali o seu milagre. No meio do cenário desolador, se destacava o viço das copas dos pequizeiros. O verde vivo das folhas refletia a luz intensa do dia, mas havia um outro brilho, como se a copa dos pequizeiros usasse uma grinalda de prata ou uma tiara incrustada de preciosos cristais translúcidos: era a floração, as flores brancas como pedras diamantinas no diadema das folhas verdes. O verde espargindo esperança sobre a árida estiagem, o branco espalhando graça sobre o estiolado agreste. Espargindo bênção, espalhando paz, desde as grimpas das rotundas copas até as costelas expostas do chão, os pequizeiros teciam no solo, cá em baixo, um delicado tapete de flores. De repente, no meio do cerrado amortecido, a gente estava no meio do mistério, o mistério de um corpo divino que, morto, é a semente da ressurreição.
Nesse momento eu me lembrei de uma frase que Evandro Guimarães de Paula ouviu de seu pai: “Uma terra que dá o pequizeiro, não pode ser terra ruim”. E me lembrei do soneto que, por provocação do mesmo Evandro, fiz ao pequizeiro e que é uma das bendições do meu livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER. Aqui está ele:

ÁRVORE DA VIDA

Um anjo torto disse ao pequizeiro,
drummondianamente: – Vai ser gauche
na vida – no viver que, sertanejo,
seria um paraíso, se não fosse

o viver perigoso encerrado
neste sem fim de mundo, na matéria
vertente, no devir, no misturado
ser tão contrário a si… Vai ser a vera

metáfora da nossa condição:
fruto bendito em mal dita loa,
do áspero agreste à refeição,

do espinhoso inferno ao céu da boca,
do chão à travessa – travessia
da vida à morte e da morte à vida.

Meu livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER pode ser encomendado pela Estante Virtual, pela Amazon, ou direto comigo pelo Face e pelo Instagram. Em Curvelo pode ser adquirido na Livraria Sto. Antônio. Em Diamantina se encontra na Livraria Espaço B.

AFONSO GUERRA-BAIÃO

Aonde vai o amor que nós perdemos

“Aonde vai o amor que nós perdemos?” Este é o verso que inicia o poema RELICÁRIO, no meu livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, que acaba de ser publicado, em primorosa edição da Aldrava Letras e Artes. Aqui vai o RELICÁRIO, como degustação do livro que pode ser adquirido através da Estante Virtual e da Amazon.

AONDE VAI O AMOR QUE NÓS PERDEMOS?

aonde vai o amor que nós perdemos?

não fecha a porta que abriu no peito,

deixa a janela d´alma entregue ao vento

e vai, no desconforme desse jeito:

e vai, no desconforme desse jeito:

desfeiteada fica aquela cama

onde o amor se fez e se desfez

sem um aviso; deixa acesa a chama

dos círios e do incenso; de uma vez,

não mais que de repente, ele parte

e parte o coração: é sua arte

sumir e aparecer como se nada

mais importasse que ganhar da vida,

vencer o tempo – e, nessa corrida,

quem perde ganha a rosa rastejada

Escolhi este poema como amostra do livro, porque nele a figura do Amor personifica a incessante busca da felicidade que “está sempre onde nós a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos”, como está dito no clássico VELHO TEMA, de Vicente de Carvalho. Nas entrelinhas dos meus líricos poemas de bem-dizer e dos satíricos sonetos de maldizer há uma voz que sopra em nossos ouvidos o velho tema, que vem desde os trovadores medievais, passando pelas poéticas clássica e barroca: ter é perder.

SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER é um livro de dupla face, que contempla tanto a meditação quanto o riso, que convida à reflexão introspectiva e à extrospecção catártica.

Continuando uma série de atividades de lançamento, meu livro estará sendo apresentado em Mariana-MG, no dia 21 de setembro, em solenidade da Academia de Letras, Artes e Ciência do Brasil.

Além da Estante Virtual e da Amazon, os curvelanos também podem adquirir o livro na Livraria Santo Antônio e os diamantinenses na Livraria Espaço B.

Afonso Guerra-Baião

Blog Afonso Baião

Amazônia em chamas

“Manitôs já fugiram da Taba, / Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!”
(Gonçalves Dias)

De madrugada eu verto a água bruta
pra batizar o índio; antes que nasça
o sol, eu sou arcanjo nessa luta
que arrebata tribo, terra, taba

ao seio do Senhor; antes que tarde,
expulso manitôs; com justa raiva,
invoco a motosserra, a divindade
que pune o templo ímpio da mata;

eu não espero pelo véu da noite
e nem escolho a lua mais propícia
para estumar matilhas de tratores

e envenenar os rios e as ilhas;
antes que o mundo acabe, eu faço fogo
para salvar da selva má o povo.

(Afonso Guerra-Baião)

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Clássicos, Flauta, Pena de Pavão

Na cidade da minha infância, havia uma rua chamada Cantinho do Céu. Essa foi a lembrança que me veio quando, entre Curvelo e Sete Lagoas, de repente uma placa me indicou: Paraíso dos Pavões. E como estamos sempre em busca do Éden perdido, eis que já estou lá, depois de um delicioso café da manhã, à beira da piscina, repondo vitamina D e mergulhando de cabeça num livro escolhido não por acaso, mas que o acaso tornou inesperadamente útil, no diálogo que logo aconteceu.
Sim, porque minha vizinha de espreguiçadeira puxou conversa, motivada pelo título do livro: “POR QUE LER OS CLÁSSICOS?”. Ela não repetiu a pergunta, mas perguntou:
– O que são os clássicos?
Respondi com um trecho de Italo Calvino:
– São obras que ajudam a entender quem somos e aonde chegamos.
– Então os livros de autoajuda são clássicos?
– Os clássicos são mais amplos.
– Mais complicados?
– Podem ser simples, mas sempre complexos, porque são inesgotáveis.
– Como assim? – ela insistiu.
Respondi, sempre com um trecho de Calvino:
– Quanto mais são lidos, mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
– Desenhe pra mim, ela riu; defina o clássico com uma imagem.
– Clássico é um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
– Então são livros antigos…
– Moderno ou antigo, clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
Nesse momento apareceu, no gramado adjacente, um casal dos pavões que dão nome à pousada. Então eu pude fazer uma pergunta:
– Você sabe a origem dos olhos na cauda do pavão?
Ela fez que não com a cabeça. Eu disse:
– O gigante Argos tinha cem olhos e nunca fechava todos, mesmo ao dormir. A deusa Hera o incumbiu de guardar uma prisioneira, a princesa Io, amante de Zeus. Para libertar a princesa, Zeus mandou que Mercúrio contasse a Argos uma história interminável e de modo tão monótono que os olhos todos de Argos acabassem se fechando e Mercúrio pudesse lhe cortar a cabeça. Para homenagear seu servo fiel, Hera criou uma ave sagrada, o pavão, e colocou em sua cauda os cem olhos de Argos. Aprendi isso num clássico: “As metamorfoses”, de Ovídio.
Minha vizinha de espreguiçadeira espreguiçou, dizendo:
– Os clássicos podem me fazer dormir…
– Ou te abrir os olhos…
Ela era um páreo duro:
– Com tanta informação assediando, quem terá tempo para ler um clássico?
– Devemos ter um ouvido aberto para os ruídos da atualidade, enquanto no outro ressoa, claro e articulado, o discurso dos clássicos – repeti Calvino, mais uma vez.
Já de pé, a vizinha teimou:
– Me diga, francamente: com tudo isso que está aí, violência, intolerância, processos kafkianos, desmatamento, queimadas, cortes de verbas e de direitos, por que ler os clássicos?
– Kafka ainda tem muito a dizer, pensei. Mas, antes que ela partisse, respondi com uma citação de Emil Cioran:
Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. “Para que lhe servirá?”, perguntaram-lhe. “Para aprender esta ária antes de morrer”.

Afonso Guerra-Baião

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O Espaço e o Poço

Eu sempre fui meio avoado: tão distraído que era chamado de poeta, tão aéreo que já tive o apelido de astronauta. E essa amena forma de bullying acabou se revelando uma profecia: não é que me tornei mesmo um escritor de versos e um inveterado viajante dos tempos e dos espaços? Ainda este ano publiquei o livro “Sonetos de bem-maldizer / de maldizer” (que te convido a ler) e há pouco estive na Grécia antiga, conduzido por Platão, para ouvir a conversa entre Sócrates e o jovem Teeteto. Nesse diálogo, Sócrates conta que Tales de Mileto caiu num poço, enquanto olhava para cima, observando os astros; então uma mulher da Trácia zombou dele, dizendo que ele procurava conhecer o que se passava no céu, mas não via o que estava aos seus pés. Sócrates conclui: “Esta pilhéria se aplica a todos os que vivem para a filosofia” – e para a poesia, podemos acrescentar. Nesta anedota, a mulher da Trácia representa o senso comum. O senso comum, assim como a filosofia, tem suas razões e suas misérias. Para o senso comum, o pensador, o intelectual, vive no mundo da fantasia, alheio às questões objetivas do cotidiano. Aquele que “quer pensar o sentido das coisas é alguém que não tem senso prático, astúcia para enfrentar o lance das vendas, das trocas, dos prazeres”, observa a professora Leda Miranda Hüne, “e o fato do pensador estabelecer distanciamento com o real imediato passa no mundo social por marginalidade”. A tentativa de marginalizar o intelectual é a miséria da visão de mundo da mulher da Trácia que, no entanto, mereceu o agradecimento de Montaigne pela advertência. Para estar com os dois pés na razão, ela precisaria fazer coro a Demócrito, que não faz distinção entre o pensador e o homem comum, quando diz: “É preciso que o Homem aprenda segundo a seguinte regra: Ele está afastado da realidade”. Pois, afinal, o que é a realidade? O real é ambíguo (lembram-se de Bachelard?). Não conhecemos o real, mas versões do real (lembram-se de Althusser?). O caso de Tales e da mulher da Trácia, contado por Sócrates, é metáfora da verdade, metáfora que condensa numa mesma unidade de sentido as perspectivas antitéticas que a professora Barbara Botter lê no episódio: a seriedade da razão versus a risada do senso comum; o céu versus a profundeza; a essência versus a existência encarnada; o universal versus o particular; o sábio versus o pragmático.
O senso comum costuma confundir a realidade sensível com a verdade, sem perceber que a essência da verdade inclui o mistério (lembram-se de Heidegger?). Para refletir sobre as narrativas que, nunc et semper, disputam a hegemonia da verdade, convém relermos o poema VERDADE, de Carlos Drummond de Andrade, que o professor Edson Nascimento Campos me recomendou para fechar essa matéria.
Verdade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidem.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Afonso Guerra-Baião)

Blog Afonso Baião

Um Poema de Blake

Temo o homem que só conhece um livro, disse Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval. O homem de um livro só é aquele cuja visão de mundo é esquemática e seu esquema é a antítese. Para ele, a existência se reduziria a um dualismo radical entre pólos irreconciliáveis: luz contra trevas, bem versus mal, e ainda direita / esquerda, alma / corpo, fiel / infiel, hetero / homo, etc. Essa visão de mundo tem um nome antigo: maniqueísmo. Sistematizado no século III pelo religioso Maniqueu, que dizia ter recebido uma revelação dos anjos, o pensamento maniqueísta é o objeto do temor de Tomás de Aquino. Como pode o homem de um só livro fazer a leitura do complexo texto da existência? Esse desafio requer um leitor enciclopédico, capaz de substituir a imobilidade da antítese pela dinâmica do paradoxo: neste, os opostos não estão fatalmente separados, mas interagem na constituição do ser que, movido por suas contradições, está sempre em devir.
Mas para que os anjos não levem a culpa pelo maniqueísmo, precisamos nos lembrar de William Blake (Inglaterra, século XVIII), homem de múltiplas leituras, artista eclético e que também dizia ter visões angelicais. Para esse místico, as injustiças sociais e a pobreza não eram obras do demônio, mas eram consequências do sistema econômico e das decisões dos governantes; para o poeta cabe ao homem superar as próprias contradições, através de novas sínteses. Antecipando-se a Bachelard, Blake compreendeu que o real é ambíguo e que, por isso, não é irreconciliável com o sonho. No poema “The clod and the pebble”, a figura do Amor lembra menos Cupido que Janus, o deus de duas faces – metáfora do real em diferentes versões: a visão otimista do frágil torrão, o olhar pessimista da dura pedra. Ao apresentar essas versões, sem juízo de valor, o poeta supera o impasse através da arte: a síntese que recria o real em sua dimensão estética. Compartilho aqui a tradução que fiz desse poema.

O TORRÃO E A PEDRA

“Amor não busca o próprio gozo,
E nem se cuida com esmero,
Mas dá a outros seu conforto
E cria céus dentro do inferno.”

Assim algum torrão de terra
Cantava, sob pés, na estrada;
Mas, beira-rio, uma pedra
Responde-lhe com essa quadra:

“Amor só busca o próprio gosto
E torna o outro escravo seu,
Goza no alheio desconforto,
E faz um inferno no céu.”

(Afonso Guerra-Baião)

Blog Afonso Baião

Manuel Bandeira do Brasil

Dizem que alguns místicos conseguem ver uma paisagem inteira num grãozinho de arroz. Manuel Bandeira não era um místico. Mas sua sensibilidade de poeta lhe permitia ver no mundo físico a dimensão metafísica; por sua intuição de artista, ele enxergava no concreto o abstrato, no simples o complexo. Assim é que sua poesia tem como ponto de partida as imagens simples, as figuras comuns e as ações rotineiras do cotidiano. No entanto, como poeta maior, ele conduz o olhar do leitor no sentido de perceber no comum o incomum, no banal o extraordinário, no familiar o estranho. E a arte com que Manuel Bandeira conduz nosso olhar do óbvio para o insólito reside, em grande parte, no efeito de simplicidade com que seu jogo de linguagem condensa numa gota de gramática toda uma nuvem de sentido, para lembrar o dito de Wittgenstein. É através desse efeito de simplicidade que Manuel Bandeira consegue abrir, com sutileza, portais que dão acesso ao universo de sua erudição, de sua cultura clássica, do humanismo que fundamenta sua visão de mundo.

Assim, quase que didaticamente, a poética de Manuel Bandeira nos ensina que, para desvelar o ser nos entes, nós precisamos desenvolver uma “capacidade de espanto diante do que é simples” e a “possibilidade de aceitar esse espanto como morada” (Heidegger).

Faz meio século que o grande poeta pernambucano partiu para sua Pasárgada. Seus textos, porém, garantem sua presença viva entre nós. A melhor maneira de comemorar tal graça é essa: a realização do Concurso de Paráfrases e Paródias, com que a Academia Curvelana de Letras proporciona aos alunos das escolas de Curvelo e região um momento de diálogo com a poesia de Manuel Bandeira do Brasil.

Afonso Guerra-Baião

(Texto lido na solenidade de premiação do concurso ACL COM BANDEIRA, em 28 de junho de 2019, no Centro Cultural Enny Guimarães de Paula).

Procura da Poesia

No prefácio do meu livro, SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, o Professor Antônio Sérgio Bueno afirma que “a ficção vem até nós, a poesia nós temos que buscá-la”.

A ficção, a história inventada vem até nós. Nos dias atuais, a realidade parece copiar a ficção. Essa ficção não vem até nós através dos romances, dos contos, das novelas ou das séries. Ela vem até nós através do noticiário, dos meios de comunicação de massa ou das redes sociais. E as narrativas da vida real que as mídias nos aportam são tão absurdas que fazem parecer histórias infantis as obras de um Kafka, de um Orwell ou de um Garcia Marquez.

Pois bem. Em momentos assim, mais do nunca, a poesia se faz necessária. E poesia não vem até nós: nós temos que buscá-la.

Onde buscar a poesia?

Ainda muito jovem, eu fui buscá-la no ensinamento que um grande mestre, Carlos Drummond de Andrade, me oferecia em seu poema PROCURA DA POESIA. Como todo jovem, eu tinha a sensibilidade â flor da pele e transpirava emoção por todos os poros. Qual não foi, então, o meu espanto, a minha perplexidade, diante da seguinte afirmação do poeta: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. Com o tempo eu viria a entender que a poesia não é a realidade imediata, mas é a realidade transfigurada, mediada pela linguagem em dimensão estética.

Como buscar a poesia?

Em PROCURA DA POESIA, o poeta ensina: “Penetra surdamente no reino das palavras”. Surdamente: sem dar ouvido aos clichês, aos estereótipos das falas repetidas que nos assediam, fechando os ouvidos aos lugares comuns e aos preconceitos que nos bombardeiam cotidianamente. Mais ou menos como os místicos que esvaziam a mente para meditar. Só assim podemos experimentar o que Gabriela Llansol chamou de “o encontro inesperado do diverso”. É como se você estivesse andando por um campo e topasse com pedras há muito esquecidas nas trilhas ou no meio da vegetação. Você levanta uma pedra e descobre debaixo dela a efervescência de um bioma, a vida que anima um insuspeito microcosmo. Da mesma forma, as palavras nos surpreendem quando, ao penetrarmos no jogo da linguagem, descobrimos uma nuvem inteira de sentido condensada numa gotinha de gramática, para lembrar o dizer de Wittgenstein.

O todo condensado em cada parte, a parte que já contém o todo – este é o graal, objeto de desejo de quem procura a poesia, que só existe quando o construímos, e sempre precisa ser reinventado. Nessa busca, depois de muito caminhar, cheguei aos poemas que formam o livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER. Esta é a forma com que, nesse momento, eu levanto uma pedra no quintal do LOGOS, a linguagem que é a casa do ser.

Agradeço à Academia Curvelana de Letras e à OAB/CURVELO pela bela festa de lançamento, bem como à Livraria Santo Antônio, onde o curvelano pode adquirir o livro, que também pode ser pedido pela Estante Virtual ou por minha página no Face.

Afonso Guerra-Baião